Não é segredo pra ninguém que eu sou muito fã do cinema desse cara, então achei bem apropriado escrever sobre esse filme – que é o primeiro de sua carreira - para o festival, e que também é bem pouco conhecido pela galera aqui do fórum. E eis minha surpresa então quando descubro uma obra especialmente diferente de tudo que o Aja criou depois disso (pelo menos quanto à temática). Pra quem não conhece nada sobre o filme (eu não conhecia), então vai uma capenga sinopse: se passa em uma França alternativa, onde um governo opressor agora está no poder, e qualquer tipo de manifestação artística é estritamente proibida. Theo, o protagonista da história, é um dos vários inconformados que se esgueiram pelos becos a noite para estampar verdadeiras obras primas da pintura naquelas paredes, sempre correndo o risco de ser capturado pelos membros do exército opressor que passam a noite vagando em blindados a procura dos rebeldes.
Quem chutou George Orwell e seu 1984 ganha um Kit Kat. É por aí. Mas com uma pequena e colossal diferença: a arte. O filme gira quase que exclusivamente quanto a opressão dessa, como se a inibição por manifestá-la (telas de pintura são proibidas, músicas não tocam no rádio, etc), tivesse criado um mundo absolutamente sem alma. Já no inicio do filme, como imagens de apresentação, vemos a ação de Theo se esgueirando pelos becos e se escondendo dos blindados para poder manifestar sua arte naquelas paredes. E quando ele finalmente consegue com o mínimo de privacidade, é como se isso o consumisse, como se o ato dessa inibição forçada fosse não menos do que pólvora jogada na fogueira, como não poderia deixar de ser. Ele explode, vira um artista que utiliza sua raiva (fúria), para criar o belo, dar forma ao seu intrínseco, o que o proíbem... É uma imagem poderosa, magistralmente filmada por esse diretor (que tinha apenas 20 anos na época), como se fosse um maestro raivoso criando uma imagem deslumbrante. E no dia seguinte, assiste tentando esconder a melancolia enquanto membros do exército obrigam moradores a apagarem cada desenho que tenha sido criado durante a noite, quase o desmoronando por dentro, como se estivessem apagando parte dele próprio e a qualquer momento ele fosse simplesmente sumir. E o que lhe resta depois é vagar por aquelas ruelas que não levam a lugar nenhum, segurar perto do ouvido o seu rádio que solta apenas chiados na esperança de encontrar qualquer manifestação musical (e às vezes ele quase pensa que encontra). Mais tarde Theo conhece Elia (a Marion), alguém com um aspecto físico que o obceca: um olho azul e um escuro, como se fosse uma obra de arte orgânica. E aí que reside a maior força do filme: nesse relacionamento. Em um mundo cinza como esse, uma pessoa como Elia, que compartilha de seus ideais, que também se esgueira para criar o belo, passa a ser o ultimo resquício de beleza poética que ele poderia encontrar em sua vida, e como de certa forma é. E quando ele a perde por um momento, sua jornada obsessiva pelo resgate dela se torna pura, bela, angustiante. Até porque o relacionamento deles é a única coisa que poderia confrontar o cinza que os rodeiam. É um filme que valoriza o mágico do ser humano justamente impedindo que ele o manifeste.
Além do óbvio conteúdo critico que carrega a obra, a narrativa e toda a capacidade de criar cenas fortes, perturbadoras, que se tornariam a maior marca do cineasta em seus filmes subseqüentes, já mostram muita força nesse. Toda a resistência de Elia aos diversos tipos de tortura é arquitetada com uma crueldade visual que não deve em nada aos outros filmes do cara. Talvez até sentidas de forma mais poderosa, já que a atuação da Marion é maravilhosa, ela realmente parece estar carregando um mar de intensa dor naquele corpo. Mas também não tem como negar que o mais interessante nesse é ver um diretor que depois se especializaria em um delicioso gore, contar uma estória sensível como essa, de pessoas presas em um universo sem magia e transformando suas próprias vidas na representação dessa.
Baita filme, Aja, esse cara pode fazer o que quer.
Ou talvez não seja nada disso, já que eu assisti sem legenda em Pt por que não encontrei, então tive que me conformar com a Ing mesmo, que eu não manjo tanto. Talvez o filme fale de besouros, ou viagem no tempo, ou etc, e eu não to sabendo. :P
Quem chutou George Orwell e seu 1984 ganha um Kit Kat. É por aí. Mas com uma pequena e colossal diferença: a arte. O filme gira quase que exclusivamente quanto a opressão dessa, como se a inibição por manifestá-la (telas de pintura são proibidas, músicas não tocam no rádio, etc), tivesse criado um mundo absolutamente sem alma. Já no inicio do filme, como imagens de apresentação, vemos a ação de Theo se esgueirando pelos becos e se escondendo dos blindados para poder manifestar sua arte naquelas paredes. E quando ele finalmente consegue com o mínimo de privacidade, é como se isso o consumisse, como se o ato dessa inibição forçada fosse não menos do que pólvora jogada na fogueira, como não poderia deixar de ser. Ele explode, vira um artista que utiliza sua raiva (fúria), para criar o belo, dar forma ao seu intrínseco, o que o proíbem... É uma imagem poderosa, magistralmente filmada por esse diretor (que tinha apenas 20 anos na época), como se fosse um maestro raivoso criando uma imagem deslumbrante. E no dia seguinte, assiste tentando esconder a melancolia enquanto membros do exército obrigam moradores a apagarem cada desenho que tenha sido criado durante a noite, quase o desmoronando por dentro, como se estivessem apagando parte dele próprio e a qualquer momento ele fosse simplesmente sumir. E o que lhe resta depois é vagar por aquelas ruelas que não levam a lugar nenhum, segurar perto do ouvido o seu rádio que solta apenas chiados na esperança de encontrar qualquer manifestação musical (e às vezes ele quase pensa que encontra). Mais tarde Theo conhece Elia (a Marion), alguém com um aspecto físico que o obceca: um olho azul e um escuro, como se fosse uma obra de arte orgânica. E aí que reside a maior força do filme: nesse relacionamento. Em um mundo cinza como esse, uma pessoa como Elia, que compartilha de seus ideais, que também se esgueira para criar o belo, passa a ser o ultimo resquício de beleza poética que ele poderia encontrar em sua vida, e como de certa forma é. E quando ele a perde por um momento, sua jornada obsessiva pelo resgate dela se torna pura, bela, angustiante. Até porque o relacionamento deles é a única coisa que poderia confrontar o cinza que os rodeiam. É um filme que valoriza o mágico do ser humano justamente impedindo que ele o manifeste.
Além do óbvio conteúdo critico que carrega a obra, a narrativa e toda a capacidade de criar cenas fortes, perturbadoras, que se tornariam a maior marca do cineasta em seus filmes subseqüentes, já mostram muita força nesse. Toda a resistência de Elia aos diversos tipos de tortura é arquitetada com uma crueldade visual que não deve em nada aos outros filmes do cara. Talvez até sentidas de forma mais poderosa, já que a atuação da Marion é maravilhosa, ela realmente parece estar carregando um mar de intensa dor naquele corpo. Mas também não tem como negar que o mais interessante nesse é ver um diretor que depois se especializaria em um delicioso gore, contar uma estória sensível como essa, de pessoas presas em um universo sem magia e transformando suas próprias vidas na representação dessa.
Baita filme, Aja, esse cara pode fazer o que quer.
Ou talvez não seja nada disso, já que eu assisti sem legenda em Pt por que não encontrei, então tive que me conformar com a Ing mesmo, que eu não manjo tanto. Talvez o filme fale de besouros, ou viagem no tempo, ou etc, e eu não to sabendo. :P

3 comentários:
Na realidade, esse filme fala sobre uma Alemanha nazista, pós-apocalíptica, onde um jovem russo luta contra o governo pelo direito de comer massa frita.
Fui dar uma olhada na filmografia do diretor. Não gostei de Piranhas nem de Espelhos do Medo, mas acho o remake de The Hills Have Eyes muito foda.
Melhor do que o original!
hahahahah :P
E eu resolvi assistir assim mesmo pq pense "ahh, é Aja, o cara não vai ficar filosofando em um filme dele, o grande lance vai ser curtir o gore" daí me aparece isso.
É bem comum não curtirem Espelhos do Medo, até quem é fã da filmografia dele. Mas eu achei demais a forma que ele utiliza apenas o reflexo como o grande demônio do filme, como se fosse algo impossível de evitar e estivesse em cada canto.
Já Piranha, bah... Esse aí eu acho delicioso :P Trash de primeiríssima. Fazia tempo que eu não me divertia tanto como um filme quanto nesse, e quanto naquela cena do ataque das piranhas na praia.
Viagem Maldita é meu preferido dele. Adoro demais.
E mesmo quem não curte Espelhos do Medo e Piranha, curte Alta Tensão. Até pq segue uma linha bem mais Viagem Maldita. Esse é outro que vale muito a pena, sendo fã do cara ou não.
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