sábado, 18 de julho de 2009

Agora ou Nunca (Mike Leigh, 2002) - 10


Bah, minha primeira experiência com o cinema do Mike Leigh, e acho que dificilmente poderia ser mais devastadora. E na verdade o tipo de cinema aqui geralmente é meio perigoso comigo, algo do tipo 8 ou 80, essa coisa de mostrar a podridão afetiva que cada um está preso, essa espécie de alienação emocional, de solidão a dois e etc, ou seja, a vida e toda sua bosta, na maioria das vezes me afasta um pouco, raros os casos em que eu realmente consigo me emocionar, e esse é um deles.


Todas as subtramas são boas sim, e nem sei se posso considera-las dessa forma, já que até tem como juntar tudo no mesmo saco, mas o que realmente comove são os dois principais. Primeiro aquele afastamente que parece irremediavel, onde os diálogos de um com o outro se resumem em resmungos ou coisas do tipo, ou simplesmente um sim ou não, ok, é... como se há tempos estivessem caminhando por lados opostos, e que a falta de cumplicidade chegasse e níveis desesperadores. Na verdade você começa a se importar, gostar ou não dos personagens, justamente quando eles interagem com qualquer outra pessoa, que mesmo uma total desconhecida, que tenha conhecido naquele exato momento no taxi, seria mais fácil de se abrir.


até que tudo tem que ir pior pra mudanças acontecerem. Como um ataque cardíaco, uma gravidez indesejada... Não na mensagem óbvia do tipo "o destino teve que interferir para que tudo ficasse bem" e bláblá, que nem acredito nisso no filme, mas sim com que emoções extremas precisassem acontecer pra eles despertarem qualquer tipo de emoções neles mesmos. E isso aí fica tri lindo na cena que eu considero a principal do filme, onde ambos ficam pela "primeira" vez cara a cara mesmo, e onde frases como essa são ditas "eu me sinto como uma árvore que não se molha", é o tipo de coisa que normalmente geraria apenas risos pela suposta pretensão e pieguisse, mas que, devido ao contexto de tudo, dita com aquela sinceridade ingênua, com aquela melancolia evidente, com aquele expressão... causa um aperto de sufocar mesmo. E fora que as duas atuações principais são... porra, uau! Aquela expressão "presa", dura, como se fosse de gesso, onde os músculos há anos não experimentassem uma contração diferente, como a do sorriso sincero, de real satisfação... Enfim, é impressionante o que eles conseguem, e, mesmo sendo personagens cheios de defeitos, de falhas até no caráter, impossível julga-los de uma forma mais rigorosa, tamanha a humanidade e sinceridade que eles conseguem passar. Na verdade muito por isso que a cena onde eles explodem é tão comovente.

Baita filme mesmo.

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