terça-feira, 14 de julho de 2009

Os Chefões (The Funeral / Abel Ferrara, 1996) - 10/10


Totalmente focado nas consequências psicológicas do depois de puxar o gatilho. Meio parecido com Match Point ou O Sonho de Cassandra até, nesse sentido, só que esses mostram o lado da experiência imediata e de pessoas comuns que são obrigadas a encarar as consquências do ato, ao terem que se conformar com o novo status que a vida ganhou, etc, aqui mostra o lado profissional, de quem fez, faz, e sabe quais são suas perspectivas para o futuro. Na verdade o fime mergulha nessa proposta, quem puxa o gatilho abdica de qualquer vislumbre possível que não da vida atual. Um puxar de gatilho é muito mais que um possível acerto de contas com algum possível comandante divino ou coisas do blá,blá, mas sim a necessecidade de ter que inverter toda lógica humana de preservação, de ser obrigado a enxergar a finitude como uma “benção”. Quem puxa o gatilho é praticamente obrigado a rezar (com todos os paradoxos que isso pode causar) para que quando chegue a hora de fechar os olhos a única coisa que passe diante deles seja a total escuridão. Não é questão mais de acreditar ou não em Deus, é torcer para que ele não exista, viver em um ateismo forçado ou se conformar com o acerto de contas - mais ou menos como uma criança que é obrigada a escolher entre duas notas que não sabe o valor, escolhe uma, compra tudo de bobagem, e depois quando acaba pensa “pqp, será que eu podia ter gasto mais com a outra?” ou algo do tipo, ela nunca vai saber, gastou e acabou. E cada um deles se conforma com o caminho que tomou, mesmo que forçadamente.


O personagem do Chris Walken (pqp, hein) é quem filosofa mais com essas questões, ou externiza mais. É mais ou menos como se a vida tivesse dois valores extremos, na mesma proporção: extremamente banal, quando não são ligadas ao seu ciclo, se morrer dez mil palestinos são apenas 10 mil palestinos a menos, que não significam nada pra eles, já que o fato de terem quebrado possívelmente a regra maior, lhes da a possibilidade de adquirir uma insensibilidade justificável em relação a qualquer outra pessoa “porque se preocupar com quem não lhe interessa já que você está condenado mesmo?”; e por outro lado, a perda da vida de alguém próximo atinge diretamente a sua vida própria, sua única vida, fazendo com que a dor seja extremamente maior. E isso pode ser aplicado também ao personagem do Chris Penn (pqp, hein). Por isso a morte do irmão pesou tanto, é como se todos os sacrificios que eles fizeram até ali, tudo que tiveram que abdicar, fosse por nada. Como uma prostituta que aceita um sexo anal por 20 dólares, pega aids, e tem o dinheiro roubado na próxima esquina, é ter se corrompido, vendido a alma, por muito pouco. O que valeu cada puxada de gatilho se no final eles estão presos em uma vida onde uma das pessoas que mais amam não está mais? E sem a possibilidade de pensar em outra. O filme não fala do funeral óbvio, do irmão, mas sim de um triplo. E por esse lado o final se torna lindo demais.

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