terça-feira, 14 de julho de 2009

Corpo Fechado (M. Night Shyamalan, 2000) - 10


A maior parte do filme trata da batalha interna de David para acreditar e aceitar o que é. Outra na descoberta de seus poderes, e, finalmente, isso sendo posto em prática. É o indiano trazendo o fantástico mundo das HQs para um universo frio e descrente. Quando o assunto é A Dama na Água, muito se fala na capacidade que precisamos ter de desvinculamento com a realidade, para só assim conseguirmos entrar no universo do filme, e se conseguirmos isso, a experiência é muito gratificante. Em Corpo Fechado, apesar de o principio parecer o mesmo, não é. Aqui Shyamalan pede uma coisa muito mais ousada: ele não quer que o fantasioso e a realidade trabalhem em vertentes diferentes, que se exclua uma para acreditar na outra, na verdade aqui ele torna ambas dependentes e possíveis no mesmo universo. Temos nossa realidade fria e cruel, com vendedores de drogas em estádios, assassinos pedófilos, racismo, etc. E em contra partida, heróis e mocinhos, super poderes, identidade secreta, ponto fraco e etc. O filme não tenta criar um universo próprio que se espelhe no nosso para fazer criticas ao ser humano ou coisa do tipo, ele apenas implanta elementos fantasiosos e os torna completamente possíveis se a pessoa tiver o mínimo de mente aberta. Na verdade para se acreditar nisso não seria o “mínimo” que precisaríamos, mas muito mais que isso, só que o mínimo torna-se suficiente devido à direção fantástica do Shyamalan e a forma completamente segura que ele acompanha cada frame do seu filme. Na verdade nós começamos a acreditar muito mais fácil que David Dunn realmente é um super-herói no nosso mundo, do que ele próprio.


Shy coloca dois “representantes” seus no filme, duas pessoas que estão dispostas a acreditar no inacreditável, e que estão dispostas a qualquer coisa para provar sua certeza: Josph, filho de David, e Elijah. Ambos estão “aptos” a acreditar por não terem ainda criado raízes com a realidade que os cerca. Joseph, por possuir a genuína ingenuidade infantil, e Elijah, por ter sido excluído da sociedade devido ao seu problema físico e ter se encarcerado em universo fantástico que são seus gibis. Nenhum dos dois realmente tem certeza se David é mesmo um super-herói, mas ambos se jogam de cara nessa possibilidade, que se verdadeira, faz toda a vida ganhar um novo sentido. Elijah e Joseph, apesar de diferentes, se assemelham na vontade que ambos sentem de escapar do universo que os cerca. Joseph, por estar na fase de transição, na parte onde a criança começa a virar adolescente, e logo adulto, fazendo com que seja jogado na realidade escrota que é nosso mundo, onde não existe magia, não existe o fantástico, não existe nada. E Elijah, não passa de um adulto que se recusou a crescer. Sem espaço na sociedade e sem espaço no mundo. Pra ambos David é a salvação, uma forma de acreditar em um algo a mais. Joseph foi capaz de apontar uma arma para seu próprio pai para conseguir provar sua teoria, e Elijah capaz de matar centenas de pessoas apenas para encontrar seu salvador. O filme fala de pessoas que querem encontrar seu significado, de super heróis e etc. Mas acho que a mensagem mais forte aqui é o desespero que sentimos para acreditar que a vida não é apenas o que passa diante os olhos

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